Sensual, envolvente e acima de tudo brasileira. Assim é a lambada, dança que surgiu em Porto Seguro no final dos anos 80 para em seguida ganhar o mundo. Este é o ponto de partida do documentário “The Best of Lambada”, produção independente de Yuri Amaral que será exibida pela primeira vez em São Paulo nesta quinta-feira no Carioca Club Pinheiros. Todos entram de graça até as 22h30, quando começa a exibição do curta.

Ao todo, são 24 minutos de memórias da lambada, resgatadas por quem viajou o mundo divulgando o ritmo. Em cena, vocês vão conferir depoimentos emocionantes e revelações da cantora Loalwa Braz (vocalista do grupo Kaoma, a grande locomotiva da lambada no mundo) e de três dançarinos do grupo, que nasceram em Porto Seguro: Marilei da Silva (com presença confirmada na estreia) e os irmãos Braz e Didi dos Santos.

Conversei agora à tarde com Yuri Amaral, que me contou curiosidades das filmagens e detalhes significativos da história da lambada, que agora serão felizmente eternizados em uma produção de cinema. A relação do diretor com o ritmo é antiga. Quando ele tinha seis anos, sua mãe, recém-separada, resolveu morar em uma aldeia hippie em Porto Seguro. Isso aconteceu no final dos anos 80, quando o acesso à cidade ainda era bem restrito e a lambada explodia nos modestos bares de frente para o mar.

E foi esta imagem da infância que fez com que ele, agora cineasta, decidisse resgatar e pesquisar as origens da lambada em Porto Seguro. A seguir, eu conto um pouco destas histórias, com base nos depoimentos do diretor.

As origens

“Nas minhas pesquisas, descobri que, até meados dos anos 70, Porto Seguro era uma terra de índios e forasteiros. Vários  fugitivos acabavam se escondendo na região devido ao difícil acesso.” Nos anos 80, a facilidade em captar as ondas das rádios do Caribe proporcionou o primeiro contato com os ritmos das Antilhas, principalmente o zouk (que acabava de nascer com o grupo Kassav) e a soca. “E isso, somado às guitarradas paraenses, foi gerando uma mistura interessante, que caiu no gosto popular. Foi a partir destas referências que surgiu a dança lambada em Porto Seguro, com uma forte influência do forró.”

Para saber mais detalhes, clique aqui.

Um tal de Olivier Lorsac

“Quando este produtor francês conheceu a dança lambada em Porto Seguro, ele se apaixonou. Olivier foi o criador do grupo Kaoma. Acho que aquela imagem da dança sensual inserida no cenário paradisíaco de Porto Seguro mexeu com ele. E era esta imagem que ele queria passar para o mundo. Voltando à Europa, ele se encantou com a voz de Loalwa Braz, uma brasileira que morava na Europa e a chamou para ser vocalista do novo conjunto. A própria Loalwa disse que ele queria uma vocalista mais jovem, mas ficou tocado com sua voz e mudou os planos. Uma curiosidade: depois da denúncia de plágio em torno da canção “Chorando Se Foi”, Olivier praticamente sumiu dos radares e da mídia.”

Da Europa para o Brasil

“O projeto Kaoma começou na Europa. A primeira apresentação do grupo foi no Velho Continente e o sucesso chegou logo porque o mundo queria uma dança nova com uma proposta diferente. Só depois o ritmo explodiu para valer em todo o Brasil.”

Os dançarinos

“O sucesso estrondoso do ritmo do mundo obrigou a equipe do Kaoma a montar mais de um corpo de baile para cumprir os compromissos profissionais.” Os dançarinos eram, em sua maioria, nativos de Porto Seguro e paulistas. Segundo Yuri Amaral, os produtores não abriam mão dos dançarinos baianos nos eventos mais importantes e na gravação dos clipes. “Isso está muito relacionado à expressão corporal e ao sorriso que estão entre as suas marcas registradas.” Completando o time, do qual os baianos Marilei, Didi e posteriormente Bráz dos Santos faziam parte, estavam paulistas como Mônica, Adiel e Jairo Brasil.

O documentário

Yuri me disse que o objetivo dele com o filme era contar a história da lambada a partir da memória de quem viveu intensamente tudo aquilo. E já pelo trailer dá para ver que os entrevistados ficaram muito à vontade diante das câmeras, esbanjando carisma e simplicidade. “Os clipes do Kaoma eram muito bem produzidos e sempre faziam a ligação entre a dança sensual e a praia. E tentei recriar os clipes da época no documentário, escolhendo ambientes que lembrassem este contexto. É lá que os personagens nos falam de acontecimentos que ficarão imortalizados no filme.” Segundo Nalu Béco, produtora e roteirista de The Best of Lambada, as filmagens foram realizadas no verão de 2012, durante o Congresso de Porto Seguro, organizado por Berg Dias.

Por que a lambada acabou?

A partir das pesquisas, Yuri descobriu que houve uma pressão por parte das próprias gravadoras de enfraquecer o movimento para que o sertanejo viesse com força total a partir dos anos 90. “São coisas da indústria: derrubar um gênero, tachá-lo de brega para fazer outro virar em seguida. Uma pena que muitos brasileiros ainda olhem para a lambada desta forma pejorativa.” Concordo plenamente: uma dança brasileira que ganhou o mundo merecia mais respeito.